

eu, meus meridianos, altitudes, longitudes... meus orientes, meus ocidentes, alguns acidentes... passeie-me.

O mundo estava no rosto da amada
O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.
Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?
Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.
Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora, você cantará
.

Composição: Roberto Frejat/Cazuza

"O amor pela vida mortal me assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou a minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não tem coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade". (CLARICE LISPECTOR-"Um Aprendizado ou o Livro dos Prazeres.")

A estátua da noite tem dois filhos nos braços. A morte e o sonho. Um dorme profundamente, o outro finge dormir.
Aquele que dorme aceitou seu destino, nada teme;
Aquele que simula o sono combate a brevidade da vida construindo uma moral que o perpetue;
O filho que dorme não pode voltar atrás;
Quem finge dormir perde a noite reconstruindo os gestos do dia anterior;
O do sono profundo não tem remorsos;
O filho acordado cultiva a má consciência;
Quem dorme é nada;
No coração de quem finge jorra a esperança;
Quem dorme abraça o dogma;
Quem finge dormir é metáfora viva;
Perfeição e imperfeição separam a morte da vida, nessa ordem.
Onde iremos parar, nós, vivos, com as nossas “crises de entusiasmo”?
Onde iremos parar, nós, mortos no ápice da nossa parcimônia?
Entre nós estão os vivos, e, entre nós, os mortos. Para distinguir um dos outros basta colocar a chama de uma vela na boca dos cadáveres ou, perto dos lábios de quem finge, uma boca em chamas.