17 de agosto de 2010



Conheço em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada vez que ela vem ela aparece toda.

É a visão de uma floresta, e na floresta vejo a clareira verde, meio escura, rodeada de alturas, e no meio desse bom escuro estão muitas borboletas, um leão amarelo sentado, e eu sentada no chão tricotando.

As horas passam como muitos anos, e os anos se passam realmente, as borboletas cheias de grandes asas e o leão amarelo com manchas - mas as manchas são apenas para que se veja que ele é amarelo, pelas manchas se vê como ele seria se não fosse amarelo.

O bom dessa imagem é a penumbra, que não exige mais do que a capacidade dos meus olhos e não ultrapassa minha visão.

E ali estou eu, com borboleta, com leão. Minha clareira tem uns minérios, que são as cores. Só existe uma ameaça: é saber com apreensão que fora dali estou perdida, porque nem sequer será floresta ( a floresta eu conheço de antemão, por amor), será um campo vazio ( e este eu conheço de antemão através do medo) - tão vazio que tanto me fará ir para um lado como para o outro (...) Para falar a verdade nunca estive tão bem.

Cada um de nós está em seu lugar, eu me submeto bem ao meu lugar. Vou até repetir um pouco mais porque está ficando cada vez melhor: o leão amarelo e as borboletas caladas, eu sentada no chão tricotando, e nós assim cheios de gosto pela clareira verde.

Nós somos contentes.

Clarice Lispector

pensene...



É somente após a aquisição da linguagem que a pessoa atinge o campo da abstração. O pensamento conceitual é inconcebível sem a linguagem. O ser humano não só aprende a falar, mas a pensar. A linguagem portanto não apenas representa o ponto de partida para o pensamento, como também influencia o nível de abstração e o nosso modo de percepção da realidade. Ela serve como instrumento de comunicação e suporte ao pensamento.
Mudar a linguagem faz parte do processo de mudar o mundo. A relação entre linguagem-pensamento é uma relação dialética, complexa e em estado de constante construção.
As palavras são tecidas a partir de uma diversidade de fios ideológicos e servem de suporte para todas as relações sociais, em todos os domínios.

A Russa

Sobre a saudade...



Hoje senti saudade do tempo em que o Vô entrava em casa por debaixo da porta. Sim. O Vô não atravessava paredes não! Nunca, isso a gente sabe que é impossível de acontecer. Mas ele entrava em casa por debaixo da porta. Sabe aquela fresta que tem entre o chão e a porta? É. É nessa fresta que o Vô entrava com a penala de borchtch e deixava sobre o fogão de casa. Quem quisesse, era só se servir. O borchtch é uma sopa russa. Eu não conheço a receita, mas o Vô colocava tudo na panela: louro, beterraba, pepino, carnes de todos os tipos e vários outros ingredientes que eu nem sei. Eu nunca comi o borchtch. O cheiro não me agradava. Hoje, se o Vô entrasse mais uma vez por debaixo da porta, com a panela quentinha, eu me sentaria com ele pra experimentar, pela primeira vez o tal borchtch. Um grande abraço no senhor, Vô!

16 de agosto de 2010

Sobre opostos e sonhos...



Ela observou a escrita dele. Parecia-lhe alguém diferente dali: mais educado, ponderado, equilibrado (como as aparências enganam!) mas, mesmo assim, passou a conversar - virtualmente -, com esse indivíduo.

Parecia um gentleman: palavras pensadas - discurso ensaiado e toda aquela baboseira banal de quem quer impressionar. Ela fez de conta que estava achando aquilo tudo uma ma-ra-vi-lha!

Todos os dias, ela abria o correio eletrônico para ler a nova mensagem do dia... como sempre, aquele repetitivo discurso de que ela era uma mulher maravilhosa, linda, que as coisas que ela escrevia eram demais, que tudo o impressionava e vários eteceteras. Ela começou a crer que realmente sua existência fazia diferença a alguém, no caso, ele.

Então, num desses impulsos femininos-românticos, ela enviou o número do celular ao sujeito.

Ele ligou. O celular teve um "piti" e apagou. Ela, tentou retornar, mas o aparelho não salvou o número!

No dia seguinte, ele ligou novamente. Ela atendeu. Ele se apresentou, conversaram um pouco e parecia haver uma sintonia absurda entre ambos... ele encantado por ela e esta por ele... dois bobos... ele um quase-sexagenário e ela uma mulher de menos de 40 anos.

Ele, alguém que a vida causou algumas fétidas feridas. Ela, alguém que a vida era um show... de heavy metal.

Ele, alguém que pouco amou, pouco se aventurou, pouco foi amado.

Ela, alguém que viveu para amar, corria atrás de aventuras e foi intensamente amada. Muito mesmo. Bonita. Uma mulher que atrai olhares, comentários. Ela impressiona. Inteligente emocional.

Ele, um tipo que poderia ter sido belo enquanto moço mas que as décadas lhe somaram dobras pela face. Um corpo... ou eram três corpos? Não se sabe exatamente, mas fisicamente, nada atrativo... quase assustador.

Os anos, a vida de quem vai sobrevivendo, é rude.

Dois opostos. Ambos se olharam... estranheza.

Frieza.

Um convite para jantar. Ela, como toda mulher: vaidosa. Ele, como todo homem: meio-vaidoso.

Horário combinado, ambos à postos.

Ela tensa. Ele... não se sabe.

Dois opostos não se atraem. Pensou ela. Pensou tão alto que eu pude ouvir do banco traseiro.

Ele guiava... meio-mal, mas se esforçava. Ele teve uma boa intenção: levá-la pra jantar: comida oriental. Só não se lembrou de perguntar se ela apreciava. Ela aceitou assim mesmo. Ela apreciava sim.

Assustos idiotas de quem não tem intimidade e de várias formas, cumpriam uma mera formalidade.

Há regras sociais e de etiqueta que deveriam ser repensadas: se uma mulher calça salto, o homem deveria estender-lhe o braço e andar à frente dela. Outra: jamais use calça preta, meia esporte branca e sapato-de-ficar-em-casa preto... beira o bizarro. Se quer conversar e o som está ligado, deixe-o num volume bem baixinho... assim, evita que as pessoas tenham que gritar, alterar o tom de voz e fazer uma conversa parecer uma briga.

Ela odeia som alto. Ele adora samba. Ela... bem... ela é eclética mas gosta mesmo de rock. Rock dos anos 70 pra frente... sabe aquele tipo de escala que começa com Led Zeppelin? Pois é... esse mesmo... nada ANTERIOR a isso.

Imagine: opostos com uma diferença de quase 20 anos. É raro que a pessoa mais nova vá conhecer as músicas que o mais... mais vivido dançou nos bailinhos de sua época. Então, não cometa a grosseria de achar que a pessoa mais nova tem o dever de conhecer aquilo.

Os planos dele não deram certo. Acabaram indo a um lugar um tanto inusitado. Ela, apesar de não ter tanta grana como ele, tem bom gosto. Ele tem dinheiro e disse que tem bom gosto. Nós acreditamos, mas ele provou o contrário. O lugar era feio mesmo. Sabe aquele tipo de lugar que você levaria alguém que você detesta ou quer causar uma péssima impressão? Pois é... lá estavam os opostos.

Depois de várias tentativas, ela escolheu o prato, já arrependida da forte intuição que a invadia. Aquilo causou suores nas palmas das mãos dela.

Era feia e ruim a comida. Ela quase não janta, come pouco à noite. Arriscou um naco do filé. Ela se lembrou, ao ver aquela comida, dos tempos em que morava em república e cursava a faculdade. Coitado dele... não sei se a fome era muita ou alguma desilusão. Sim, ele não aprovou a moça.

Os opostos não se atraem, lembra?

Bem... ele comeu o "rango". Ela beliscou... estava sem fome (ela quase não come à noite).

Sabe como são aquelas conversas durante almoço ou jantar? Essa não foi muito diferente: ele criticava os gostos dela: o refrigerante, os doces. Antes disso, ele a matou no caminho desse lugar em que fizeram a refeição... matou ao dizer que ela precisava se cuidar. Quanta sutileza!

Ela pesa algo que ainda ocupa dois dígitos. Ela aparenta ser 1/3 do corpo dele. Ele a aconselhou a se cuidar. Sabe o que é isso pra uma mulher que sabe estar "gordinha", mas que sabe estar "gostosa"? Isso é estrangular a vaidade feminina. Nesse momento, ouvi os pensamentos dela mais uma vez: "- não se enxerga, balofo????"...

É... você não se esqueceu, né? Os opostos...

Eu percebi que ambos se esforçavam pra suportar um ao outro. Ele esperava ter se encontrado com uma lolita e ela com um cavalheiro. Nem um, nem outro. Ambos estavam iludidos!

Não defenderei nenhum dos dois. Mas eu, se fosse o tiozinho, teria me ajoelhado e rezado vários Pai-Nossos em agradecimento por ter conhecido uma mulher como aquela.

Fazer o que, né!?

No dia seguinte, ela tentou ser gentil. Mesmo sabendo que a coisa não rolaria, ela quis (mania de mulher!) ter as provas, ouvir - ou melhor: ler as palavras.

Ele nem respondeu ao "boa tarde" no msn.

Ela, educadinha, ainda arriscou-se informando as boas novas do dia. Ele apenas respondeu limitada e grosseiramente:

"isso é coisa do Caetano".

Assinou apenas com o nome, sem aquela lenga-lenga de deixar beijos ou elogiar a moça.

As palavras, quando são poucas, são uma espada... uma frase só: fina e compridinha (não muito): cortaram as tripas da moça no ato. Atravessou-lhe a barriga e rasgou um tiquinho de um pulmão.

Inconformada! Ela ficou inconformada com a grosseria. Que ele não tivesse interesse numa moça de menos de 40, tudo bem, mas destratar a criatura que nada de mal lhe causou... é típico de homem sexagenário mesmo.

Não, caro leitor, cara leitora, não estou dizendo isso sobre qualquer homem sexagenário. É este, do texto, da história. Um homem que está beirando os sessenta e ainda tem o sonho de conseguir para si, uma Lolita.

Ela ficou pensando durante a tarde do dia seguinte nos seus sonhos de mulher. Não é uma mulher, apenas... ela é uma, aliás a Mulher. Ela sempre diz isso. Dá-se, permite-se esse reconhecimento. Ela que se achava uma sonhadora ficou desiludida!

Conheceu alguém que sonha - de fato e tamanho -, alguém que sonha o impossível... uma lolita (veja bem: escrito em minúsculo - uma adjetivação, e nada a ver com a personagem criada pelo compatrício Nabokov...

A Russa.

13 de agosto de 2010

julho de 2010: um retorno...

Há tempos que não posto minhas letras obtusas - às vezes -, empolgadas - quase sempre -, apaixonadas - costumeiramente: pela Vida, pela alegria, pela palavra, pela arte.

Há tempos, também, que eu não vivia: foi-se um ano de quase-morte... um coma de um ano no meio de pessoas estranhas e com hábitos tão estranhos quanto suas condutas impensadas e grosseiras... um ano plasmada em personagens que lutavam mas nunca sobreviviam ao fim do dia... mas...

Mas deixemos o que se passou no exato lugar em que ele merece estar: no passado.

Um dia, quem sabe, eu revisitarei esse passado nas minhas sábias páginas de sobrevivência e rirei...

Desejo brindar o meu recente passado, minha alegria e meu presente com esse pequeno desabafo descompromissado de sentido para alguns, mas cheio de alegorias para mim, com a retomada deste meu espaço - totalmente meu -, o qual ouso dividir com quem por aqui passear.

Voltei: para casa, para a Família, para MIM... pra Vida.

E tudo isso começou em julho de 2010 e está renascendo em plena sexta-feira 13 do mês de agosto... teria data melhor?? rsss

Beijos... mágicos!

10 de agosto de 2010

Pessoa...




"Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram."


Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'

3 de agosto de 2010

E...

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."

Friedrich Nietzsche


31 de maio de 2010

Amanhã...




(
Composição: Guilherme Arantes)

Amanhã
Será um lindo dia
Da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã
Redobrada a força
Pra cima que não cessa
Há de vingar
Amanhã
Mais nenhum mistério
Acima do ilusório
O astro-rei vai brilhar
Amanhã
A luminosidade
Alheia a qualquer vontade
Há de imperar

Amanhã
Está toda a esperança
Por menor que pareça
Que existe é pra vicejar
Amanhã
Apesar de hoje
Ser a estrada que surge
Pra se trilhar
Amanhã
Mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã
Ódios aplacados
Temores abrandados
Será pleno, será pleno

21 de abril de 2010

meias reflexões...

Ainda mantenho alguns hábitos... as reticências na escrita, nos pensamentos... vez ou outra, na fala.
Café solúvel com chocolate e leite quente é hábito novo... os cabelos, quase louros onde por anos o hábito os traziam vermelhos como vermelho era a cor dos meus olhos, minhas mãos, minhas intempéries, meus ventos, meu pisar... vermelho era eu toda e agora que outras cores se achegaram é que percebo isso...

Mas rendi-me à pequenas coisinhas inéditas... pequenos hábitos novos... mais liberdade, mais prazer (?)... não sei ainda...

Voltando lá, nas reticências iniciais, eu mantenho sim, alguns nobres hábitos que já sei bem, nunca os perderei, nunca os substituirei e agradeço ao Criador que eu conheça que isso é parte de mim e que nunca vá os perder... gosto que o mundo continue louco, suspenso (ou não?) girando em torno de coisas e outras coisas...

Mas disso tudo, acho que também estou ficando suspensa... girando no ar. Menos ansiosa, mais calma, a calma que nunca achei que conseguiria ter... sinto-me em saudades ardentes dos vinte e cinco anos, quando as coisas ardiam menos...

7 de abril de 2010

Compreensão...

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Autoestima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!
Charles Chaplin