25 de novembro de 2010

Nós...



Costumávamos sonhar... de tanto sonhar, perdemo-nos entre sonho e realidade.

Gostariamos de sonhar mais, mas já não nos cabe esse brinquedo pueril: a vida adulta dói, grita e nós temos que obedecer coisas que não gostaríamos... mas tem que ser assim.

Enquanto o sol disputava metáforas abstratas com outros seres alados, nós temíamos não mais correr nos becos e ruas protegidos anonimamente, como gostamos. Mas o sol perdeu e nós continuamos livres. À noite, ainda corremos vestidos apenas de risos e alegrias... nós dançamos tantas danças que os nosso corpos, mesmo cansados, ainda teimam dançar mais e mais... frenéticos, alucinados, inebriados de tanta liberdade que só quem é como nós a sabe sentir... e vivê-la.

Se tu não nos acompanha neste momento é porque a maturidade queimou-lhe uma parte linda da anatomia... nós ainda observamos que aonde se esconde a criança, nós nos escondemos também... disfarçamos várias vezes sermos outra pessoa para que não nos roubem o encanto e a magia de sermos exatamente como queremos ser: livres, libertos, alegres, faceiros, feiticeiros...

Lembra-se de quando tu também eras uma criança como hoje eu sou? Lembra-se de quando tu mentias roubar pedaços de lua pra me ver rir?

Rio eu de ti, hoje...

Tu te tornaste desprezível e vil... querendo roubar de mim risos que não mais pode me oferecer. Se tu estranhas que eu sou nós, é porque eu já morri tantas vezes e ressuscitei tantas vezes que não me enxergo mais eu, apenas "eu"... eu sou "nós": várias "eu" que foram renascendo tantas vezes me mataram. Nós somos fortes e belas... nós somos alegres e jovens... as mortes não nos deram as marcas e sinais no corpo... nós ainda temos aqueles brilhos pueris que transbordam quando estamos plenas... nós não precisamos que o mundo esteja aos nossos pés porque NÓS somos os mundos todos que queremos ter... enxerga-nos assim? Entende-nos?... Cremos que não... e tampouco importa-nos que nos enxergue ou nos entenda... nós continuaremos no caminho profano e sagrado, andando ou voando, mas continuaremos porque temos pressa e fome... o nosso alimento é a vida e custa-nos caro demais.

Se ao me buscar não me encontrares é porque somos EU tantas que não caberemos em teus olhos. E ainda, se tentares nos ferir, ainda assim, não conseguirá: todas as armas e munições são inúteis para quem já morreu tantas vezes e aprendeu a sobreviver de tal maneira que, ao menor toque da morte, já se planta novamente na raiz e começa a renascer.

Nós não tememos dançar em dia de mortos. Também não tememos oscilar nos mastros dos piratas que bradam nos teus pesadelos... E nós, exaustas, ainda conseguimos remar mares e oceanos em busca de outras nós que por ai naufragaram... nós somos tantas, mas tantas que tu não conseguiria amar-nos nem cantar-nos...

Se tu não entendes as nossas sintaxes, nossos morfemas e sememas, se tu não compreendes as nossas figuras semânticas e de linguagem... ainda assim, se tu te assustas com as nossas gravidades obtusas, afasta-se de nós... assim como a esfinge, nós devoraremos qualquer carne que vacilar em nossa frente.

EU somos muitas e você...

Ândrea Mamontow, A Russa.

alguém...



"Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito..."

Millôr Fernandes

algo de são Gabriel Garcia Márquez...


"Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas.

Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.

Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar.

Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.

Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre."


Querido MARQUÉZ... juro que se você não tivesse dado vida a essas palavras nessa exata ordem, antes de mim, hoje eu as teria manipulado... como é tão meu esse texto... e se me permitir, logo eu me apropriarei dele estendendo uns tantos que necessito... Como amo ler-te e te sentir...

23 de novembro de 2010

Diário de uma gordinha...



Meu Querido Diário:
Hoje começo a fazer dieta. Preciso perder 8 kg .

O médico me aconselhou a fazer um diário, onde devo colocar minha alimentação e falar sobre o meu estado de espírito.
Sinto-me de volta à adolescência, mas estou muito empolgada com tudo.
Por mais que dieta seja dolorosa, quando conseguir entrar naquele vestidinho preto maravilhoso, vai ser tudo de bom.


Primeiro dia de dieta:
Uma fatia de queijo branco.
Um copo de diet shake.
Meu humor está maravilhoso.
Me sinto mais leve.


Segundo dia de dieta:
Uma saladinha básica.
Uma fatia de queijo branco.
Algumas torradas e um copo de iogurte.
Ainda me sinto maravilhosa.
A cabeça dói um pouquinho, mas nada que uma aspirina não resolva.


Terceiro dia de dieta:
Acordei no meio da madrugada com um barulho esquisito.
Achei que fosse ladrão.
Mas, depois de um tempo percebi que era o meu próprio estômago.
Roncando de dar medo.
Tomei um litro de chá.
Fiquei mijando o resto da noite.
Anotação: Nunca mais tomo chá à noite.


Quarto dia de dieta:
Estou começando a odiar salada.
Me sinto uma vaca mascando capim.
Estou meio irritada.
Mas acho que é o tempo.
Minha cabeça parece um tambor.
Janaína (aquela estagiaria novinha) comeu uma torta alemã hoje no almoço.
Mas eu resisti.
Comi só duas fatias de queijo branco.
Anotação:Odeio Janaína


Quinto dia de dieta:
Juro por Deus que se ver mais um pedaço de queijo branco na minha frente, eu vomito!
No almoço, a salada parecia rir da minha cara.
Gritei com o boy hoje!
E com a Janaína.
Preciso me acalmar e voltar a me concentrar.
Comprei uma revista com a Gisele na capa.
Minha meta.
Não posso perder o foco.


Sexto dia de dieta:
Estou um caco.
Não dormi nada essa noite.
E o pouco que consegui, sonhei com um pudim de leite.
Acho que mataria hoje por um brigadeiro…


Sétimo dia de dieta:
Fui ao médico.
Emagreci 250 gramas .
Tá de sacanagem!
A semana toda comendo mato.
Só faltando mugir e perdi 250 gramas !
Ele explicou que isso é normal.
Mulher demora mais emagrecer, ainda mais na minha idade.
O FDP me chamou de gorda e velha!
Anotação: Procurar outro médico.


Oitavo dia de dieta:
Fui acordada hoje por um frango assado.
Juro!
Ele estava na beirada da cama, dançando dança do ventre.
Anotação: O pessoal do escritório ficou me olhando esquisito hoje, Janaína diz que é porque estou parecendo o Jack do ‘Iluminado’.


Nono dia de dieta:
Não fui trabalhar hoje.
O frango assado voltou a me acordar, dançando a kara karamba kara karaô dessa vez. Passei o dia no sofá vendo tv.
Acho que existe um complô.
Todos os canais passavam receita culinária.
Ensinaram a fazer Torta de morangos, salpicão e sanduíche de rocambole.
Anotação:Comprar outro controle remoto, num acesso de fúria, joguei o meu pela janela.


Décimo dia de dieta:
Eu odeio Gisele Bundchen!
Com photoshop até a Dercy Gonçalves fica gostosa.


Décimo-primeiro dia de dieta:
Chutei o cachorro da vizinha.
Gritei com o porteiro.
O boy não entra mais na minha sala e as secretárias encostam na parede quando eu passo.


Décimo-segundo dia de dieta:
Sopa.
Anotação: Nunca mais jogo pôquer com o frango assado.
Ele rouba.


Décimo-terceiro dia de dieta:
A balança não se moveu.
Ela não se moveu!
Não perdi um mísero grama!
Comecei a gargalhar freneticamente.
Assustado, o médico sugeriu um psicólogo.
Acho que chegou a falar em psiquiatra.
Será que é porque eu o ameacei com um bisturi?
Anotação:Não volto mais ao médico, o frango acha que ele é um charlatão.


Décimo-quarto dia de dieta:
O frango me apresentou uns amigos. A picanha é super gente boa, e a torta, embora meio enfezada, é um doce.

Décimo-quinto dia de dieta:
Matei a Gisele Bundchen !
Cortei ela em pedacinhos e todas as fotos de modelos magérrimas que tinha em casa.
Anotação: O frango e seus amigos estão chateados comigo.
Comi um pedaço do Sr. Pão.
Mas foi em legítima defesa.
Ele me ameaçou com um pedaço de salame.


Décimo sexto dia:
Não estou mais de dieta.
Aborrecida com o frango, comi ele junto com o pão.
E arrematei com a torta.
Ela realmente era um doce ........



Frase de Reflexão:
‘Certas dietas são simples:
Basta cortar o açúcar, as frituras, as massas, as bebidas alcoólicas, os pães e os pulsos, kkkk

20 de novembro de 2010

Nem lembranças...


Olá, Querido!

Há tempos não conversamos e nem tragamos a mesma fumaça... também há tempos não pouso meus olhos nos teus e nem sinto mais o teu cheiro inebriantemente másculo e gostoso. Mas hoje, hoje foi um dia especial... senti teu cheiro em outro corpo e num passe de mágica, vi você andando com as almas do Mississipi... eu estava lá, sentada, apreciando as almas que vagam procurando paz... parecem nunca encontrar!

Sentei-me porque encontrei a Paz.

Voltando àquele nosso papo que ainda não terminou, queria apenas te dizer que, sinceramente, você ficou atrás... foi meio-bom enquanto durou e você sabe disso... eu não quero pra minha vida, alguém que seja metade, um terço ou qualquer outra parte daquilo que restou antes de ficar preso em alguma criatura que cruzou teu caminho, tua cama... tua lama que você fuça sem se alimentar... você é muito, mas muito pouco pra mim... Querido, acho que só você não enxergou isso...

Lembra daquele dia em que eu tropecei e cai da Vida? Aquele dia em que você sumiu, deu no pé, amarelou? Pois é... foi o primeiro dia em que me libertei definitivamente de você... Pra sua curiosidade, estou bem, mas tão bem que ao encerrar essas letras cheias de veneno, nem mais me lembrarei de você... tuas camisas? Claro que queimei... junto das tuas fotos... aquela porcaria que você chamava "perfume", despejei no vaso sanitário e quando acionei a descarga, vi você escorrer pro cano, junto daquele cheiro de feno com bosta que você exala.

Pra você, um copo dose dupla de princípios... com certeza não te faria mal algum!

Au revoir, w.a.s., o patife.

Ândrea Mamontow, A RUSSA.

14 de novembro de 2010

Título? rss não precisa...


"Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir.

Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.
Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).
Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.
Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.
Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ...
Goste de música e de sexo.
Goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ...
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.
Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas.
Fume, não beba, não chore sozinho, eleja algumas contravenções.
Me rapte! Se nada disso funcionar ... experimente me amar!"

Martha Medeiros

3 de novembro de 2010

O primeiro dom...


O primeiro dom que se manifestou foi o de línguas. Em pentecostes, os discípulos, junto com Maria, ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a orar, a louvar, a cantar numa língua nova, a língua do Espírito. Alguns interpretaram o acontecimento e disseram: ''Eles louvam a Deus, estão cantando as glórias de Deus, e nós estamos entendendo com o coração''. Outros estavam ali como curiosos, brincando, zombando, dizendo que os discípulos estavam bêbados. Pedro explicou: ''Não estamos bêbados; pelo contrário, está se cumprindo a profecia de Joel''. O primeiro dom criou confusão.




24 de outubro de 2010

Vamos coletar ossos, Amor...

Aqui, membros suspensos de mim cantam pedras.

Trocamos gritos nas estrofes, gritos ásperos, como se quiséssemos socar as nossas orelhas…
Fizemos do desespero um aprisionamento e marchamos em direção ao absurdo… gostamos de tudo que é absurdo e que nos tire desse lugar-comum em que confortavelmente você boceja e sonha escondido com medo dos olhos alheios. Você tem medo do julgamento e nós… não.

Vamos mais adiante, eu e os membros que cantam, correndo entre as pedras, as estátuas, os corpos em decomposição que jazem aos ecos dos brados da vontade de uma vitória que não mais alcançarão… à direita de Deus-Pai um homem estranho me olha como se a minha alma fosse suja como a dele… ele enxerga meus pecados e vê a eminência da morte que me persegue… mas não me alcança.

Quanta decadência há em viver obrigatoriamente sempre reparando as rachaduras do meu corpo… evitando que ervas brotem nas frestas, evitando que flores surjam entre meus miolos cansados… nós ainda temos muito a cantar... continuemos!

Lembra-se daquela música que eu lhe disse ser a mais linda que já tinha ouvido? Passamos – eu e os membros -, semanas ouvindo-a… ouvimos tanto que a transformamos em eterna… um código, um hino... imaginamos mil formas de dançá-la… que vergonha, Deus! E eu não sei se sei dançar!

Minha família não ouve a música… nem a que cantamos nem a que ouvimos e nós, eu e os membros do meu corpo, vamos sair pra nova guerra: catar os ossos dos companheiros mortos no combate de ontem. Vamos seguir os abutres! Sintam o olor das carnes podres que convidam-nos ao banquete! Juntemo-nos aos de asas negras! Louvemos o sangue derramado e gritemos lindas palavras de agonia! Salve os nossos mortos que morreram por não saber cantar!

Eles não têm coragem de abrir os olhos, então, serão divinamente devorados por nós…

Por trás do meu ombro, percebo chegar a Luz que me assusta… onde há trevas me escondo com mais dificuldade… e eu também sou luz… não há lugar confortável como onde você se deita… deitamos nosso corpo – meu e dos membros -, nos espinhos quebrados pelos beiços dos plebeus que por aqui ceiaram ontem… e somos nós, eu e os membros, plebeus também… mas somos dignos porque cantamos, porque choramos, porque gritamos e porque dançamos… lindo ou não, mas não tememos… e por enquanto, isso nos torna nobres de alma e coração.

Somos invejados por aqueles que não sabem enxergar. Odiados por aqueles que não sabem cantar… repelidos por aqueles que não têm coragem… criticados por aqueles que não souberam e não sabem amar. Perseguidos por quem não sabe dançar. Amaldiçoados por quem não sabe navegar. Amados pelos que nos acompanham nos dias de caça aberta pois só estes sabem o som da nossa voz e o perfume que exala das nossas palavras agônicas, almáticas e ferinas!

Há dias meu útero cresce várias pessoas… tantas que já perdi a conta! Deus meu… dai-me a coragem de aguentar-me! Dai-me a Tua luz para que eu não me perca de mim mesma e dai-me a sabedoria e astúcia para que eu saiba sobreviver à luta que logo travarei comigo mesma!

Veja, companheiro… as bocas mastigam somente o que é rígido e duro de engolir… afiam as presas para que sejam dilacerados os corpos macios e táteis das pedras que cruzam nossos caminhos!

Juntai-se a nós! Não tenha medo dos meus olhos e nem dos meus dedos… jamais te faria mal… não a ti! Olho-te assim porque necessito dessa paz que escondes atrás do peito rasgado pelas rajadas da Vida… mas te peço que não vire as costas a mim… eu não saberia reagir ante o hálito morno que exala da tua nuca depois que te beijo em cio… Gosto de amar teu corpo como um animal que sou e desmaiar em teus braços quando termina meu sorriso largo e cego… Busco alcançar tua essência por dentro da tua boca mas a língua não a alcança… ainda…

Sinta como o canto petrifica-nos a excessiva coragem! Convida-me a parar… raramente meus pés e olhos param… a não ser quando lhe beijo faminta, sedenta… louca pra arrancar-lhe das tripas o resto do ar primeiro que respiraste na vida.

Não há tempo! Temos uma guerra começada e tudo que temos a fazer agora é alcançar, assassinar e decapitar os inimigos… roubar-lhes as cabeças dos seus corpos… pendurá-las em nosso pescoço – quantas pudermos e couberem -, tomar-lhes o sangue e comer-lhes as carnes … Não há tempo pra amar quando canto após essa comilança… Contudo, ainda não somos tão maus… somos?

Apesar de cantarmos e gritarmos barbaramente, somos crianças e colhemos flores! E rimos… e choramos quando preciso, mas pouco: não há muito a chorar por aqui… Procuramos atrás dos muros das escolas, onde se escondem os homens que deveriam desposar as meninas virgens que os esperam virtuosamente brancas ao lado da estátua de sal… Já não há mais guerreiros para cruzarem com essas meninas virgens… vagamos semanas à leste, norte, oeste e sul… sentamo-nos ao centro e não encontramos esses seres… o fim está próximo: elas não mais gerarão semi-deuses… estamos fadados a sermos órfãos de heróis e aventuras que nos encoragem a desejar a liberdade que somente as ondas batendo em nosso navio sabem traduzir esse sentimento…

Vamos ser ingênuos, por favor… E por favor, não tenham esperança, esse sentimento vil, biltre e infâme que nos contamina os ânimos quando precisamos seguir! Não há cá, espaço pra esperança… nós cavamos o que precisamos e queremos… não esperamos que caia da providência uma solução que nos seja favorável… quando não nos alegra, nós – eu e os membros de mim -, exterminamos a fonte da nossa chuva de bosta…

Sinta… sinta como nossas crianças não sabem mais brincar! Ensinaremos, então, como se brinca nos dias de coletar ossos! Ensinaremos, então, como cantar nos dias de tomar sangue! E ensinaremos às crianças, como dançar a nossa música que ficou esquecida dos outros ouvidos contaminados pela podridão da humanidade…

Vem, Amor… podemos abocanhar e ferir tudo que não se pode classificar! Nossos filhos serão mais fortes e guerreiros quanto mais sangue e carne nos alimentar! Vem, Amor… é a última vez que te chamo a vir comigo desbravar carniças, rolar e cavar leitos, beber oceanos, cavalgar ventos… talvez, dessa próxima viagem, eu não mais te veja se não vires comigo… de qualquer forma, guarda em teus ouvidos as palavras que neles deitarei:
- sempre te amei… e sempre te amarei… nunca deixes de acender aquela vela pra mim, na janela, no canto direito, pra que eu não me perca de ti se chegar na escuridão noturna do teu quintal… aprende a minha música, Amor… cante-a pra mim que ouvirei teus ecos nos cantos do mundo, onde quer que eu esteja… eu te amo tanto quanto amo aquela música primeira que te cantei um dia… lembra de mim como se lembra dessa música nossa… amo-te do tamanho da angústia dessa partida até a chegada dessa nova guerra... amo-te do tamanho da saudade que sinto de estar nos teus braços quando cantas pra mim essa nossa música solene, eterna, terna… como eu te amo!
Ândrea Mamontow, A Russa. 24 de outubro de 2010…

23 de outubro de 2010

A esperança, por Nietzsche...

Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu.
Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado "vaso da felicidade". E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite.
Um único mal ainda não saíra do recipiente: então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens - é a esperança.
Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

Friedrich Nietzsche, "Humano, demasiado humano", Cia. das Letras, p.63, aforismo 71, SP, 2001.

4 de outubro de 2010

Cada história tem a sua versão...

Duas mulheres conversando:

- Como foi sua transa ontem?
.
1ª - Uma catástrofe! Meu marido chegou do trabalho, jantou em 3 minutos, depois tivemos sexo durante 4 minutos e após 2 minutos, ele já estava dormindo! E sua transa, como foi?
.
2ª - Foi fantástica! Meu marido chegou em casa levou-me para jantar e depois passeamos à pé, durante 1 hora até voltarmos para casa. Após 1 hora de preliminares à luz de velas, fizemos sexo durante 1 hora e, no fim, ainda conversamos durante mais 1 hora!

x-x-x-x-x-x-xx-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-


Os dois maridos conversando:

- Como foi tua trepada ontem?

1º - Foi fantástica! Cheguei em casa e o jantar estava na mesa; jantei, dei uma rapidinha e dormi feito pedra! E a sua?
.
2º - Uma catástrofe! Cheguei em casa e não havia luz porque esqueci de pagar a última conta. Tive que levar minha mulher para jantar fora. A comida foi uma porcaria e caríssima, tão cara que fiquei sem dinheiro para pagar o táxi de volta. Não tivemos outra alternativa senão ir a pé para casa. Chegamos em casa e como não tínhamos eletricidade, fomos obrigados a acender velas! Eu estava tão stressado que precisei de 1 hora até que o bicho ficasse duro e uma hora até conseguir gozar. Foi de tal maneira irritante que não peguei no sono durante 1 hora, e fui bombardeado pela minha mulher com uma infindável conversa fiada....


Recebi esse texto do amigo Francisco de Paula Souza.


Eu não sei se ele compartilha dessa segunda versão (será? rss) mas é notório que os homens, em sua maioria, pensam exatamente dessa maneira. Em contrapartida, nós, mulheres, pensamos exatamente a primeira versão! rsss