30 de julho de 2008

Rilke...


O mundo estava no rosto da amada

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

Tradução: Augusto de Campos




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28 de julho de 2008

Estrelas, de Oswaldo Montenegro...

Foto de K.L. Short

Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora, você cantará



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25 de julho de 2008

Pra todo mundo...


Blues da Piedade

Composição: Roberto Frejat/Cazuza


Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

19 de julho de 2008

16 de julho de 2008

Eu sou Áries...

Aos Filhos de Áries

Áries, o primeiro signo, do carneiro apaixonado
Tem em Marte seu designo e no fogo seu reinado
Nas estrelas seu delírio, seu amor enciumado
Nos limites, seu martírio, seu mistério revelado

Louco signo das correntes e emoções arrebatadas
Ariana dos repentes e explosões descontroladas
Ariana, como o fogo, nunca será dominada
Decisiva como o jogo e a primeira namorada

Signo da sinceridade, da vermelha cor do dia
Signo da velocidade, da impulsão e eu nem sabia
Que era tanta madrugada a derramar no coração
Como a rosa serenada, se transforma e pinga ao chão
Derretendo ao fogo da paixão.

Signo da sinceridade, da vermelha cor do dia
Signo da velocidade, da impulsão e eu nem sabia
Que era tanta madrugada a derramar no coração
Como a rosa serenada, se transforma e pinga ao chão
Derretendo ao fogo da paixão.

Oswaldo Montenegro

Vozes de Clarice...


"O amor pela vida mortal me assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou a minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não tem coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade". (CLARICE LISPECTOR-"Um Aprendizado ou o Livro dos Prazeres.")

As palavras no tempo...



A estátua da noite tem dois filhos nos braços. A morte e o sonho. Um dorme profundamente, o outro finge dormir.

Aquele que dorme aceitou seu destino, nada teme;

Aquele que simula o sono combate a brevidade da vida construindo uma moral que o perpetue;

O filho que dorme não pode voltar atrás;

Quem finge dormir perde a noite reconstruindo os gestos do dia anterior;

O do sono profundo não tem remorsos;

O filho acordado cultiva a má consciência;

Quem dorme é nada;

No coração de quem finge jorra a esperança;

Quem dorme abraça o dogma;

Quem finge dormir é metáfora viva;

Perfeição e imperfeição separam a morte da vida, nessa ordem.

Onde iremos parar, nós, vivos, com as nossas “crises de entusiasmo”?

Onde iremos parar, nós, mortos no ápice da nossa parcimônia?

Entre nós estão os vivos, e, entre nós, os mortos. Para distinguir um dos outros basta colocar a chama de uma vela na boca dos cadáveres ou, perto dos lábios de quem finge, uma boca em chamas.


“Vida e morte” GARGANI, Giorgio A. In: As palavras no tempo. PEPE Dunia & De MAIS, Domenico. Rio de Janeiro: José Olympo, 2003.

4 de julho de 2008

fuga em qq menor...


é preciso fugir de si próprio quando nos oferecemos riscos, perigos e paixões.
A.M.